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18-01-2008  Entrevista  
Colômbia: como o CICV ajudou na liberação de Clara e Consuelo
A liberação das duas reféns destacou o trabalho do CICV no longo conflito na Colômbia, que já gerou milhares de vítimas. Bárbara Hinterman, chefe da delegação do CICV em Bogotá, nos dá um panorama sobre a operação de liberação e sobre aspectos mais amplos relacionados ao CICV.

©Reuters / D. Munoz
Barbara Hintermann, chefe da delegação do CICV na Colômbia


Qual foi o papel do CICV na liberação de Clara Rojas e Consuelo González?
Na Colômbia, grupos armados organizados tomam reféns por razões políticas e ganhos financeiros. Na maioria dos casos, estes reféns são mantidos em cativeiro por semanas, meses e anos sob condições extremas. A situação também é difícil para os parentes porque eles raramente recebem noticias dos reféns e a espera pode ser extremamente torturante.

A tentativa inicial de liberar Clara Rojas e Consuelo González foi feita sob um considerável escrutínio público. O governo da Venezuela estava envolvido durante todo o processo e uma comissão internacional, composta por representantes de sete governos, participou nos estágios iniciais da tentativa de liberação das reféns. O CICV seguiu de perto estas negociações e agiu como intermediário neutro facilitador da operação.

Embora Clara e Consuelo não fossem liberadas imediatamente, o CICV continuou a trabalhar diligentemente com todas as partes envolvidas para assegurar a agilidade da liberação. Os representantes foram posicionados em Caracas e em San José de Guaviare, na Colômbia, e serviram como uma base de lançamento para a última parte da entrega das reféns. Meu colega em Caracas e eu, em Bogotá, mantivemos contato de perto com os governos venezuelano e colombiano, respectivamente, e trabalhamos nos detalhes logísticos.

De minha parte, me encontrei com o Ministro de Defesa da Colômbia e com o Comandante Geral das Forças Armadas para obter as garantias de segurança necessárias para a área onde a entrega seria realizada. Ficou decidido que uma comissão menor do que a inicial participaria na liberação das reféns e que seria conduzida sob a proteção do CICV.

"Clara Rojas declarou que, só depois de ver o emblema da Cruz Vermelha nos helicópteros, é que ela se convenceu de que seria finalmente liberada"


Uma vez que tivemos as garantias de segurança, a missão humanitária, liderada pelo CICV, agiu rapidamente. Dois helicópteros, levando dois representantes do CICV e membros da comissão internacional e o emblema da Cruz Vermelha, levantaram vôo de San José de Guaviare na manhã do dia 10 de janeiro. O uso do emblema da Cruz Vermelha foi significante porque deu um sinal, visível a todos os envolvidos, de que a missão era realmente neutra e de caráter humanitário. De fato, Clara Rojas declarou que, só depois de ver o emblema da Cruz Vermelha nos helicópteros, é que ela se convenceu de que seria finalmente liberada.

O CICV participa na liberação de outros reféns?

Sem dúvida que sim. De fato, o CICV já participou como um intermediário neutro e imparcial na liberação de centenas de reféns na Colômbia. A primeira vez foi em 1980, depois da tomada de reféns na embaixada da República Dominicana em Bogotá. O CICV mantém contato freqüente e um diálogo confidencial com todas as partes do conflito, incluindo as FARC-EP, para lembrá-los de suas obrigações no respeito das normas fundamentais do Direito Internacional Humanitário.

Como uma organização humanitária neutra e imparcial, o CICV faz o possível para assegurar a liberação de todos os reféns, usando para isso negociações discretas e confidenciais, mas com total transparência e com a aceitação de todas as partes envolvidas.

A tomada de reféns está proibida pelo Direito Internacional Humanitário e o CICV continuará a buscar todos os caminhos possíveis para assegurar uma liberação imediata. Entretanto, o CICV está ciente da realidade e sabe que pode levar algum tempo até que os reféns sejam libertados. No seu diálogo confidencial e contínuo com os atores armados, o CICV insiste que os reféns, caso não sejam libertados imediatamente, sejam tratados humanamente e que possam comunicar com suas famílias através das Mensagens Cruz Vermelha. Entretanto, ainda não permitiram que o CICV tivesse acesso aos reféns e a organização ainda não teve êxito no intercâmbio de mensagens.

A delegação do CICV na Colômbia possui cinco subdelegações e seis escritórios. Ao redor de 60 representantes trabalham nas áreas mais afetadas pelo conflito armado. Esta presença em campo permite que o CICV estabeleça contato com a maioria das unidades das FARC e com outros grupos organizados para discutir uma variedade de assuntos humanitários.

O CICV também participou na liberação dos membros das forças armadas colombianas que foram reféns de grupos armados organizados. Mesmo que não se tratasse de uma violação ao Direito Internacional Humanitário, o CICV também ofereceu seus bons ofícios para facilitar a liberação deles por razões humanitárias.

Qual é o futuro destes reféns?

Naturalmente esperamos que eles sejam libertados o mais rápido possível. Na Colômbia, há muita conversa sobre a possibilidade de iniciar um “acordo humanitário”, desmilitarizando consideravelmente uma área designada para começar o diálogo entre o governo colombiano e as FARC para a liberação de reféns e detidos. Sendo uma organização neutra e imparcial, o CICV pode, como já foi feito no passado, agir como intermediário neutro na facilitação da libertação destes reféns e detidos.

Caso este “acordo humanitário” seja materializado, o CICV certamente exercerá um papel importante. Nós recebemos com prazer qualquer iniciativa apontada para a redução das conseqüências humanitárias dos conflitos e para o aumento do respeito ao Direito Internacional Humanitário.

©Reuters / D. Munoz
Bogotá: uma mulher com a foto de um ente querido mantido como refém.


Quais são as outras conseqüências humanitárias deste conflito?

O conflito armado interno da Colômbia é, talvez, o conflito mais longo da história contemporânea. Os confrontos armados entre o Estado e vários grupos armados não-estatais, as ameaças, as execuções sumárias, a violência sexual, o recrutamento forçado de crianças e o uso de minas anti-pessoal têm provocado sérias conseqüências humanitárias, especialmente durante, aproximadamente, os últimos 15 anos. E isto tem sido extremamente prejudicial para o desenvolvimento social e humano.

Milhares de pessoas são mantidas nas prisões estatais colombianas e centros de detenção transitória devido ao conflito armado. O CICV tem acesso a todas estas instalações e os representantes conversam com os detidos e avaliam suas condições de detenção regularmente.

Como é o caso durante a maioria dos conflitos armados, os civis têm sido os alvos da maioria da violência armada. Milhares de pessoas que nunca fizeram parte diretamente no conflito armado continuam desaparecidas e suas famílias esperam desesperadamente por uma notícia. O fato de não saber se um familiar está morto ou vivo pode provocar tremendo dano psicológico numa pessoa.

O conflito armado da Colômbia também produziu um dos maiores deslocamentos de civis no mundo. De acordo com os números do governo e de sociedades civis, entre 2 e 2,5 milhões de pessoas foram forçadas a deixarem suas casas devido às ameaças, hostilidades armadas e recrutamento forçado. Na maioria dos casos, os desalojados internos são lavradores que são forçados a buscar refúgio nas comunidades carentes das cidades colombianas. A adaptação a um centro urbano pode ser muito difícil e, na maioria dos casos, estes deslocados não são capazes de conseguir as necessidades básicas para suas crianças devido à incapacidade de conseguir trabalho imediatamente.

Na realidade, o CICV, em colaboração com o Programa Mundial de Alimentos conduziu um estudo abrangente sobre as condições socioeconômicas das populações deslocadas internamente em oito cidades. Esta pesquisa foi finalizada no fim do ano de 2007. Mesmo que o governo tenha feito mais, durante os anos, para prover assistência a médio e longo prazo a estas vítimas, ainda há muito que fazer. A maioria dos deslocados internos continua vivendo em condições de pobreza extrema, especialmente durante os primeiros meses de adaptação.

O deslocamento interno também tem um efeito particular sobre as mulheres e crianças, como também sobre as minorias. As populações afro-colombiana e indígena estão, no momento, afetadas desproporcionalmente pelos deslocamentos forçados. Eles têm um forte laço cultural com suas terras e o fato de serem arrancados de suas raízes pode ser particularmente devastador. As mulheres e crianças têm necessidades específicas. Mais da metade das pessoas deslocadas internamente está abaixo dos 18 anos.

Muitos departamentos – divisões administrativas regionais – não são capazes de absorver este grande número de pessoas deslocadas, e a maioria das crianças deve esperar por um tempo até ter acesso aos serviços médico e educacional. Também, muitas casas são encabeçadas por mães sozinhas, cujos maridos morreram em combate ou estão desaparecidos, fazendo com que a luta pela sobrevivência no cotidiano seja mais difícil. Algumas mulheres também são vítimas de violência sexual.

O CICV tem reagido positivamente às necessidades contínuas das populações deslocadas internamente. Nos últimos dez anos, o CICV ajudou a mais de um milhão de pessoas deslocadas internamente, com itens alimentícios e não-alimentícios. A delegação do CICV na Colômbia continua ajudando estas vítimas durante os primeiros meses de seus deslocamentos. Somente em 2007, o CICV levou ajuda humanitária a aproximadamente 70.000 pessoas. Além disto, o CICV se esforça para persuadir e mobilizar as corporações do Estado e das sociedades civis para fornecer melhor qualidade em serviços sociais e assistência para as pessoas deslocadas.

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18-01-2008