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29-02-2008  Informe especial  
Minha Esperança e Minha Razão de Existir

Meu nome é Juana Huaytalla Méndez. Tenho 45 anos. Moro em Lima desde 1982, mas nasci e vivi parte da minha infância em Ayacucho. Durante o conflito armado interno (1980-2000) perdi a minha mãe. Ela se chamava Maria Méndez, tinha 31 anos de idade quando desapareceu da minha casa no dia 16 de julho de 1984. Desde esse dia eu tenho lutado com todas as minhas forças para saber o quê aconteceu, mas sem nenhum resultado positivo. <?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />

Até dez anos atrás eu tinha muitas ilusões de encontrar a minha mãe ainda com vida. Agora, depois de tanto buscá-la e não achá-la, minhas esperanças diminuíram. Em 2005, a Defensoría del Pueblo (Ministério Público) de Lima, publicou uma relação com os nomes das pessoas desaparecidas durante o conflito armado interno, mas não achei o da minha mãe. A decepção foi tão dolorosa que senti como se tivessem enfiado um punhal no meu peito. Pensei que o esforço que tinha feito até aquele momento tinha sido em vão. Era a segunda vez que eu passava por aquilo, porque, alguns anos antes, encontrei o nome da minha mãe em uma lista pregada na parede de um centro penal de Lima, mas, quando fui buscá-la, vi que não se tratava dela, mas sim de outra pessoa.

A minha vida seria hoje menos complicada se eu a tivesse visto morrer por causas naturais. Confesso que ultimamente eu quis me dar por vencida, mas logo me levanto e continuo lutando em busca da verdade. É duro passar por isso, porque a incerteza gera muito sofrimento.

Hoje as minhas filhas já estão grandes. Elas são a minha fonte de força e apoio diário. Quando falo com elas sobre a minha mãe sempre termino chorando, porque me dá muita pena o fato de elas não a terem conhecido. Muitas vezes me dizem que querem conhecer a terra onde eu nasci, mas eu resisto a voltar. Uma vez, há dois anos, voltei ao lugar, mas rapidamente retornei a Lima, porque as lembranças e a dor pela tragédia voltaram à minha cabeça imediatamente e eu não consegui suportar.

Ao longo desses anos de busca eu mudei muito. Antes era muito calada, quase não falava e sempre estava me escondendo dos outros. Agora, digo na cara tudo o que penso e sinto, e participo com freqüência em manifestações junto a outras mulheres que estão passando pela amarga experiência de ter um parente desaparecido. Com elas, descobri que não era a única que sofria, mas que éramos muitas as que levávamos essa imensa dor em nossos corações.

Entretanto, graças a elas eu aprendi a fazer coisas novas para manter economicamente a minha família. No inicio, pintávamos quadros sobre as coisas que vivíamos, o horror da violência, a dor dos nossos povos e os enterros, além de alguns costumes dos nossos antepassados relacionados com a morte. Com o passar do tempo, nossos temas foram ficando mais positivos. Agora pintamos paisagens em que predominam a natureza, os animais, o trabalho com a agricultura e o pastoreio, entre outros.

Embora mminha vida tenha mudado, não deixei de pensar nem por um minuto na minha mãe e na possibilidade de encontrá-la com vida algum dia ou, pelo menos, saber o que aconteceu com ela. Essa é a minha esperança e minha razão de existir. Definitivamente, não posso me esquecer dela.

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29-02-2008